Alegria

Conversava com Tarcísio, o Feliciano, um dia desses, sobre o valor da alegria, essa coisa que nós dois encontramos, por exemplo, nas palavras. Talvez a alegria não seja tão simples, ou mesmo simplória, como se pensa apressadamente. Gosto quando Espinosa enxerga nela uma conquista. É mesmo nesse sentido que ela é uma virtude — levando em conta o étimo da palavra: uma força. O mundo anda meio parco, carente de alegrias; as pequenas e fortes alegrias.
Poetas, escritores, filósofos vivem lembrando a importância dessa energia irmã da graça. E com razão: precisamos caçá-la sobretudo no mundo turvo que temos diante de nós nesse momento. Ela é o que abre tudo: a mente, o coração, a alma. O oposto da alegria é a angústia — um aperto, um estreitamento.
Daí esse étimo antiquíssimo, “angh”, para dizer estreitamento, aperto. Na crise atual, o estreito de Ormuz diz bem dessa situação; ninguém passa ali com folga, como se fosse alegria de mar aberto. Abra-se o Estreito de Ormuz e o mundo circula com a alegria de sempre (mas é preciso suprimir, antes, esses déspotas que têm potência, mas não têm grandeza). “Enquanto os homens exercem seus podres poderes”, a saúde do mundo vai mal: no dialeto dos médicos, a angina é estreitamento dessa mesma ordem; do peito, das artérias.
Nietzsche, em Aurora, um dos seus mais belos textos — justamente porque um dos mais tônicos e alegres —, no fragmento 509, diz ser preciso “conservar uma pequena porta para a alegria. E um refúgio, mesmo quando suas próprias paixões desabem sobre você. Abra seu terceiro olho de teatro, o grande terceiro olho que considera o mundo através dos dois outros!”.
Com o tempo, vou vendo o que fica de mais precioso na peneira das reconsiderações; e vejo que prefiro, de longe, uma pessoa leve, boa gente, a qualquer sábio sisudo. E isso porque, como quer meu amigo Michel Serres, “a alegria inspira, vibra, dança. A vida dança qual uma cortina de chamas, a morte enrijece; a inteligência dança, a burrice se fixa, repetitiva; a intuição dança, a lógica e a memória programam os robôs; a palavra dança quando nasce e desaba no estereótipo; o desejo dança, a indiferença dorme”(Michel Serres, Os cinco sentidos, p. 330 — esse livro é uma pérola; recomendo).
Assim, detesto estar com quem me tira a alegria; evito — como se evita o contágio de pessoa infeccionada. Mau humor pega, contagia. Também Guimarães Rosa caminha nessa direção: (...) “o certo era a gente estar sempre brabo de alegre, alegre por dentro, mesmo com tudo de ruim que acontecesse, alegre nas profundas. Podia? Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando com coisa nenhuma” (Campo Geral).
E num outro momento: “Era preciso chamar a alegria, como se chama a chuva na desgraça de uma seca demorada” (A Estória de Lélio e Lina). Acho que está dizendo que tristeza é feito ferrugem. E, santo bem nosso, Osman Lins, arremata: “Atravessa o mundo e com suas alegrias, procura o amor, aguça com astúcia a gana de viver”. Sim, Tarcísio: a literatura? uma alegria — em meio a qualquer que seja a tempestade, ela luz (isso aqui é um verbo, viu? Verbo luminoso, literário).

Puxa! Lourival. Já na leitura do título, fiquei “alegre”. A leveza da sua escrita é contagiante. Parabéns!
Recebi de você a mais bela pérola do saber! Você me ensinou sobre a palavra... sobre o ouvir... a simplicidade do saber, excluindo o ranço acadêmico, e a refletir sobre o que é alegria!
Você ouviu as minhas falas sobre a escrita de Guimarães Rosa, no auge da paixão que eu estava por ter descoberto a poesia da escrita de Rosa. Falas tão ingênuas de uma leitora com bagagem apenas da sede da descoberta da palavra encantada, e flutuando como uma borboleta 🦋 em busca do conhecimento da descoberta.
Você ouvia as minhas loucuras...
Hoje quero ficar acanhada kkkk, mas não consigo. Saltito de alegria com as descobertas da poesia!